Review | O Último Amor de Mr. Morgan (2013), de Sandra Nettelbeck

Morgan Tucuman

“Amor”, de Michael Haneke, conquistou o mundo e venceu o Oscar por refletir sobre a morte e o passar do tempo para as pessoas. Em 2010, John Cameron Mitchell partiu corações com “Reencontrando a Felicidade”, sobre pais que tentam lidar com a dor da perda de um filho. Em “O Último Amor de Mr. Morgan”, a cineasta alemã Sandra Nettelbeck (“Helen”) adapta a obra de Françoise Dorner sobre um senhor que, após a morte da esposa, precisa encontrar motivações para viver. Os três filmes se comunicam de forma ímpar pela densidade da narrativa e por questionar os valores familiares e a vida.

A trama se passa em Paris, onde conhecemos Matthew Morgan (Michael Caine) logo após a perda da esposa (Jane Alexander), que sempre foi seu porto seguro. Com a fatalidade, Mr. Morgan decide continuar na cidade, sem falar francês e vivendo como pode, tomado por  lembranças e tristeza. Certo dia, ele conhece Pauline (Clémence Poésy), uma jovem professora de dança que despertará uma nova motivação em sua rotina. Durante a jornada de superação, ainda conhecemos a relação conturbada dele com os filhos Karen (Gillian Anderson) e Miles (Justin Kirk).

Sandra Nettelbeck é bem específica em suas motivações para o filme, sabendo utilizar os conflitos em doses homeopáticas. No primeiro ato, a relação de Mr. Morgan com Pauline é o principal gancho. A jovem apareceu na vida do protagonista em um momento de fragilidade, com toda a sua doçura e enxergando nele uma figura paterna. A amizade que surge é tão legítima e pura, que é impossível não se encantar com os passeios e as aulas de dança que eles compartilham. Também é inevitável questionar se esse encantamento pode ir além da amizade, mas a sutileza dos diálogos faz com que isso pouco importe.

Em seguida, uma mudança brusca acontece. A entrada dos filhos de Mr. Morgan direciona a trama para outro lugar. Se no início acompanhamos o sofrimento do protagonista aliviado pela jovem professora de dança, agora teremos questionamentos bem mais profundos sobre valores familiares. Em algum momento, portanto, essas duas linhas narrativas se encontrarão. O acerto do roteiro de Nettelbeck é justamente não entregar tudo de cara, guardando as informações sobre a vida daqueles personagens para serem usadas nos momentos certos. Assim, o longa contorna os clichês e mantém o interesse do espectador até o final.

Como diretora, Nettelbeck também sabe o que faz. Dispondo de uma fotografia que brinca com jogos de luzes e sombras, ela evita closes excessivos para forçar a emoção do público e opta por planos mais abertos, escancarando a solidão de Mr. Morgan no apartamento vazio ou pelas ruas de Paris. Também é um mérito a ilusão de ótica que ela cria, inserindo conversas imaginárias de Mr. Morgan com sua esposa que rende momentos belíssimos como na sequência em que a mão do protagonista é agarrada, como se a presença da mulher da sua vida continuasse mesmo após a morte.

A experiência de Michael Caine eleva a trama para outro nível. Desde o primeiro frame, o ator mostra que essa é uma das atuações mais significativas da sua carreira. A segurança com que transita, no decorrer da projeção, de um homem em depressão a um pai pouco presente é assustadora, no melhor sentido da palavra. A química de Caine com Clémency Poésy é deliciosa, mesmo quando a sintonia entre seus personagens se disperse. Destaque também para a pequena participação da experiente Jane Alexander é bem mais apaixonante e poética, que pode levar às lágrimas.

Por outro lado, Gillian Anderson e Justin Kirk não conseguem segurar muito bem os caminhos narrativos que o longa toma. Anderson participa rapidamente e a futilidade de seu personagem incomoda. Já Kirk tem mais tempo em cena, até para resolver os problemas com o patriarca, mas não consegue ter empatia alguma ou segurar uma cena sozinho, o que é fatal para o desfecho que é dado para a trama.

Embalado por uma trilha sonora delicada de Hans Zimmer, sempre correto, “O Último Amor de Mr. Morgan” é sobre não estarmos preparados para perder quem amamos. Como o próprio personagem diz, a vida continua cheia de distrações, de pessoas e acontecimentos que ainda precisamos decifrar e que nos mantém vivos. Uma bela poesia sobre o amor e a família para refletir.

Avaliação: 8/10

Texto originalmente publicado no Cinema com Rapadura.

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