Colegas, de Marcelo Galvão

Esse não é um filme sobre síndrome de down. Não existe a pretensão de passar lições clichês sobre sermos todos iguais, independente das diferenças. Quando o cineasta Marcelo Galvão escreveu “Colegas”, há sete anos, sua principal inspiração foi um tio downiano, por quem tinha muito carinho. Ele queria contar nas telonas uma história sobre como o parente, falecido no ano passado, era uma criança presa no corpo de um adulto, com sua ingenuidade e pureza. Como charme principal, o cineasta ainda fez uma homenagem ao cinema mundial, inserindo inúmeras referências, frases de filmes e reproduções de cenas memoráveis. O longa foi exibido na abertura da programação do 9º Amazonas Film Festival, no último sábado, em Manaus, fora de competição e sendo aclamado por unanimidade.

Os sete anos para chegar ao décimo terceiro tratamento do roteiro renderam muitas adequações para alcançar o objetivo que queria. Nos últimos quatro anos, ele e a equipe ensaiavam praticamente todo dia, para que não perdessem a vontade de filmar quando conseguissem patrocínio, o que impediu a realização imediata do road movie de comédia. A dificuldade em convencer as empresas a investir no projeto já era prevista, afinal muitas delas não queriam atrelar seus nomes a um filme protagonizado por três garotos com síndrome de down e outros 60 no elenco de apoio. “Esse é o meu quinto longa e o primeiro que eu precisei captar. Os outros foram com dinheiro próprio. Foi difícil convencer as pessoas a colocarem dinheiro por causa da temática”, relembra Galvão.

A trama é focada em Stallone, Aninha e Márcio, que trabalham na videoteca do instituto onde moram. Cinéfilos assumidos, daqueles que sabem as falas dos filmes decoradas, um belo dia eles assistem a “Thelma & Louise”, de Ridley Scott, e decidem fugir em busca de seus sonhos. Stallone quer ver o mar, Aninha quer casar com um músico e Márcio quer voar. E, apenas por acaso, todos são portadores de síndrome de down. Eles partem sem rumo, invadindo circos, assaltando mercadinhos e… abraçando as poucas pessoas que os ajudam. Cada sonho vai sendo conquistado no decorrer dessa jornada, enquanto a polícia procura os três foragidos que, ao olhar das pessoas ´normais´, são bastante perigosos e estão altamente armados. Com armas de brinquedo e vestidos de gênio da lâmpada, super-herói e princesa.

Direção de elenco

“Não importa ter down, mas sim o amor que a gente tem aqui dentro. E foi fundamental o carinho que ganhamos de outros atores do elenco”, relembra Breno Viola, que interpreta Márcio. Ele se refere ao elenco de apoio formado por estrelas como Juliana Didone, Deto Montenegro, Leonardo Miggiorin e Lima Duarte, que também é responsável pela narração que cabe perfeitamente com o tom de fábula abordada pelo diretor. “Esse filme só foi possível porque a gente teve coragem. É o primeiro longa que eu faço, mas eu não quero parar”, completa Viola, que credita o sucesso do filme também a Marçal Souza, experiente produtor e deficiente visual, completamente apaixonado pelo road movie.

O trabalho intenso com o elenco é o grande trunfo de “Colegas”. Ariel Goldenberg, que interpreta Stallone, já participou de programas como “Carga Pesada” e algumas novelas. “Fomos fiéis ao roteiro. O Ariel tem uma capacidade extrema de decorar as falas. Basicamente os três tinham tudo decorado. Por algum motivo se não dava certo, a gente mudava. Breno improvisou bastante”, diz o cineasta. O trio principal tem tanto orgulho do filme que deseja um dia poder ganhar o Oscar. Rita Pokk, que interpreta Aninha, quer continuar trabalhando no cinema, principalmente nos gêneros de suspense e terror, seus favoritos. Ela nem gosta muito de comédia, mas parece que “Colegas” é uma exceção. Já Ariel quer ser estrela de novela.

Referências

A ideia de trazer diálogos famosos de filmes como “Casablanca”, “Taxi Driver” e “Tropa de Elite” facilitariam as falas dos atores. “Estudei atenciosamente ´Forrest Gump´ e outros filmes que eu gosto para compor o script”. Galvão se inspirou em Tarantino, Spielberg e Truffaut, para citar alguns, e várias referências que são jogadas na tela em formato de quiz, instigando os cinéfilos a identificarem cada uma delas.

“Colegas” foi aplaudido de pé em todos os festivais por onde passou, e, no Amazonas Film Festival, não foi diferente. Se estivesse em competição, certamente seria a principal escolha do júri popular. A fábula agrada todo tipo de público pela inocência e competência ao lembrar, discretamente, que todos somos diferentes um do outro e não há perdas por isso. O longa foi o grande vencedor do Festival de Gramado desse ano, tendo passado também nas mostras do Rio e de São Paulo. Por possuir uma temática mundial, foi convidado também para os festivais do Cairo, Moscou, Utah e Tiradentes. “O objetivo é chegar até Berlim também”, deseja Galvão.

Apesar da captação tardia, Galvão conta que fazer cinema no Brasil é “menos difícil” que no restante do mundo, já que temos leis de incentivo. “O complicado mesmo é colocar o filme nos cinemas pelo baixo número de salas. Os ingressos são caros e é difícil concorrer com as produções internacionais”, diz. Mesmo assim, a expectativa é fazer uma boa campanha em circuito nacional quando estrear no dia 1º de março do próximo ano. E certamente não vai ser difícil conquistar o público. “Prefiro a receptividade positiva do público do que qualquer prêmio”, finaliza Galvão.

Matéria originalmente publicada no Jornal Diário do Nordeste.

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