Crítica | Lua Azul (2021), de Alina Grigore

Há um pensamento enraizado na sociedade ocidental de que a instituição família deve ser vista dentro do campo do sagrado. Amá-la acima de todas as coisas pode ser fácil para alguns, mas para outros o ambiente doméstico é lugar de penitência de onde surgem e se alimentam opressões e violências muitas vezes silenciadas devido à obrigatoriedade de fidelidade e retribuição eterna por tudo que se é concedido ao nascer. É nesse contexto que a realizadora Alina Grigore elabora o seu primeiro longa-metragem pelos olhos de Irina, uma jovem de 22 anos que vive no interior da Romênia e está presa aos negócios e aos tentáculos de seus parentes.

Leia a entrevista com a diretora de Lua Azul

Irina deseja ir para Bucareste na tentativa de romper com uma rotina de submissão que não justifica mais sua permanência, já que ela vive a sua própria anulação diante da tradição familiar. O motivo da partida é estudar na universidade – por um lado, por possibilitar que ela se capacite para o futuro; por outro, por não deixar de ser um discurso coerente para sair dali. A questão é que a família de Irina não acredita que a educação abra novas portas para ela ou, o que é mais provável, prefere que tais portas se mantenham fechadas. A prova de que isso acontece vai além dos conflitos óbvios, como o primo adulto que não sabe ler e precisa da ajuda de Irina para isso, e surge em pequenos discursos sobre ficar com a família ser mais importante do que qualquer diploma, pois é assim que se prospera.

Existem no roteiro de Lua Azul pontos sombrios que criam suposições sobre o que acontece de fato no íntimo daquela família. Grigore cria um discurso sólido sobre a importância da educação para os jovens, mas não busca exatamente intervir pelo bem-estar da protagonista de maneira fácil. A diretora quer jogar luz na relação (in)voluntária de Irina, que até algum momento acreditou que aquele era mesmo o seu destino. Há o que se vê porque acontece e dá prosseguimento à narrativa, mas a diretora também trabalha com subtextos que colocam em dúvida o que realmente aconteceu e acontece no passado daquelas pessoas. Dicas surgem nos diálogos que dão conta de problemas mais severos no passado de Irina que nem sempre vêm à tona. A escolha de Grigore não é trabalhar exatamente com a chave do mistério, mas da suspeita, ao oferecer ferramentas para as mais variadas leituras que engrossem o pedido de ajuda para a emancipação da protagonista, enquanto retrata a vida de muitos jovens aprisionados na zona rural romena.

A diretora parece interessada em discutir, para além das opressões, o sentido de amar e do amor que robotiza as relações interpessoais e que, ao ser a base clara de uma família disfuncional, causa sequelas irreversíveis – a confiança que Irina parece ter, sobretudo após o possível abuso sexual sofrido em uma festa e o envolvimento posterior com o tal rapaz, é também uma farsa porque fora de casa é o único lugar onde ela pode tentar ser outra pessoa, ser quem quiser. Os familiares não estão preocupados em poupar Irina dos perigos do mundo externo, como poderia ser pensado de forma romântica pela trama; eles apenas não querem que ela saia da asa familiar que, eles pensam, garante fortuna, sucesso e segurança. Ela chega a acreditar nisso porque, ao não ser lançada ao mundo, suas convicções particulares podem sempre estar erradas.

Funciona a estratégia de usar a câmera para sufocar os corpos em cena, principalmente o de Irina, tão bem personificada pela atriz Ioana Chitu. Esse sufoco dialoga com as pequenas crises de pânico que ela tem, transformando-a em uma bomba relógio que pode explodir a qualquer momento (mesmo que ela não saiba se tem, pelo menos, o direito de explodir). Os demais personagens sufocados acentuam a falta de lógica e a sujeira de suas respectivas atitudes, o que cria quase de imediato uma antipatia por qualquer um que entre no quadro, principalmente os homens, até mesmo os que simulam alguma preocupação legítima com Irina. Grigore parece testar os limites de todos, mas principalmente os do espectador que tenta se importar com a jovem, já que ela não é uma coitada “tradicional” que se vitimiza para ganhar o carinho do público, muito menos incorpora o papel de revoltada (isso fica em partes com Viki, sua irmã, que também tem importância no último terço da trama).

Grigore é claramente obcecada por Irina e extrai de Chitu uma densidade física e psicológica assombrosa que descasca as nuances de uma personagem fria, triste e solitária, às vezes vítima, às vezes opressora. O desejo de partir é proporcional à exaustão, ao medo e à falsa comodidade da situação que ela vive, o que torna o longa um emaranhado de sentimentos perigosos. Grigore não abre mão de sequências mais longas e expositivas, mas balanceia com calma ao mostrar a profundidade do olhar de Irina sendo sugada pela submissão aos seus parentes. Premiado no Festival de San Sebastián 2021, Lua Nova é sobre driblar a dificuldade de não cair na ratoeira familiar que castra a vontade de existência e pertencimento em um mundo que, sozinho, já é complexo demais.

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Filme visto na programação da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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