Crítica | Livre (2014), de Jean-Marc Vallée

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Avaliação: Ótimo

Dia desses estava pensando em algumas decisões que tomei no passado. Queria poder mudar boa parte delas, mas não necessariamente por arrependimento. “Livre”, novo filme de Jean-Marc Vallée, esclareceu um pouco sobre essa angústia que sempre tenta nos dividir ou nos culpar de algo. Talvez as coisas realmente aconteçam do jeito que têm que ser para operar mudanças futuras na nossa forma de pensar e ver o mundo. Ou talvez nem tudo tenha uma explicação e simplesmente acontece.

Com esse tom de autoajuda, a adaptação estrelada por Reese Witherspoon é uma jornada de (re)descoberta, não muito diferente do que foi contado até hoje, como no excelente “Na Natureza Selvagem”, mas que vale a pena se você se permite participar da vida dessa mulher atormentada. No decorrer do filme, Vallée introduz aos poucos os fatos do passado da protagonista que justificam essa fuga, enquanto a cada passo caminhado parece levá-la ao encontro de si mesma. É como se fosse um road movie a pé, em que as experiências vividas devem se transformar em algo no final.

Enquanto encara o calor, o frio e as estradas irregulares de uma trilha pela costa do Pacífico, Cheryl encontra outras pessoas que também têm suas razões de estar no mundo. Cada um carrega seus próprios problemas e motivações. Não importa onde eles estão, os desafios, as quedas e as superações, eles continuam seguindo. Desistir é sempre uma possibilidade, mas ela decide continuar, mesmo com o peso da mochila e sem saber o que será dela ao final da jornada.

Depois de uma experiência um tanto insossa com “Clube de Compras Dallas”, Vallée voltou a pensar melhor na narrativa do seu filme, e não apenas se sustentar no poder das atuações para deixar de lado um trabalho mais apurado como diretor. O cineasta aos poucos volta ao brilhantismo que atingiu com “C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor”, em 2005, explorando melhor as situações, os cenários e os recursos técnicos, principalmente a montagem. Não que Vallée não tenha trabalhado o lado dramático de Witherspoon, mas aqui pouco parece que sua performance ampara qualquer fragilidade de roteiro.

Indicada ao Oscar, Witherspoon se entrega como pode ao papel, mas a delicadeza e a simplicidade de Laura Dern se sobrepõem. Dern também interpreta uma mulher sofrida, mas que acredita que o otimismo pode ser o melhor remédio. Percebe-se no fundo dos seus olhos as marcas do passado, mesmo que ela jamais busque se martirizar por isso. Para ela, o que importa é construir o presente e o futuro, mesmo que este esteja comprometido. A química com Witherspoon rende belas sequências, sem exagerar no melodrama familiar.

O que importa aqui é a transformação não apenas dos personagens de “Livre”, mas também de quem assiste. É quase impossível não se imaginar na mesma situação da protagonista ou imaginar uma fuga semelhante. Afinal, como seres humanos falíveis, estamos sempre querendo ir para algum lugar, nos refugiar bem longe. Às vezes sem conseguir, nos enclausuramos dentro dos nossos próprios conflitos em busca de consertos e soluções. Mais que isso, estamos sempre buscando paz.

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