Zach Braff e o crowdfunding para Wish I Was Here

Wish I Was Here

O ator, diretor, roteirista e produtor Zach Braff, mais conhecido pela série Scrubs, lançou mês passado uma proposta de crowdfunding para realizar seu próximo filme, Wish I Was Here. Semelhante ao que aconteceu com os fãs da série Veronica Mars, que colaboraram com verba para que um filme seja feito, Braff usou o site Kickstarter para juntar US$ 2 milhões. Essa semana, o projeto ultrapassou US$ 3 milhões em doações, vindas de mais de 46 mil fãs e apoiadores particulares.

O objetivo do crowdfunding é a colaboração. Enquanto os grandes estúdios se preocupam com os blockbusters, muitos filmes (e ideias) competentes se perdem ou demoram a ser feitos. Não à toa, todos os anos temos a black list de Hollywood, que aponta os melhores roteiros não realizados. São filmes que possuem grande potencial, mas que acabam não interessando os produtores, talvez por terem histórias ousadas ou pouco comerciais. Sabemos que hoje o que importa, principalmente em Hollywood, é a arrecadação. As franquias infinitas, como Velozes e Furiosos, continuam movimentando o público e gerando renda. E o mais grave: gerando filmes semelhantes.

Dessa forma, o crowdfunding parte da participação de uma outra parcela do público que gosta e valoriza filmes alternativos e independentes. Zach Braff escreveu, atuou e dirigiu em 2004 o excelente drama Hora de Voltar, com Natalie Portman, e desde então ficou parado como roteirista e diretor. Lamentável, pois seu talento para tais funções é grandioso. No vídeo do Kickstarter, Braff fala que esse distanciamento se deu pela dificuldade financeira em realizar um novo filme e principalmente pelo “final cut” dos grandes estúdios.

De toda forma, Hora de Voltar se tornou um filme especial para muita gente (inclusive para este autor) e foi realizado com o patrocínio de uma empresa que nem tinha relação com a indústria do entretenimento, mas gostava de Scrubs e de Braff. Agora, com a proposta de filmar Wish I Was Here, ele defende que o crowdfunding o ajudará novamente a ter controle total da obra, sem submetê-la aos cortes comerciais dos grandes estúdios, e contar uma boa história.

Hora de Voltar1

O crowdfunding tem se popularizado também no Brasil, por meio de sites como Catarse e Cineasta, onde muitos projetos buscam apoio. Recentemente, enquanto eu participava do Cine PE – Festival do Audiovisual desse ano, em Recife e Olinda (PE), as diretoras cariocas Jo Serfaty e Mariana Kaufman, do documentário Confete, falaram que conseguiram fazer o filme por crowdfunding. Também pode ser uma alternativa para driblar as difíceis entradas em editais de cultura e realizar obras “na garra”.

Mas vamos pensar um pouco. Se o crowdfunding é uma saída “mais fácil”, principalmente para os grandes astros que possuem legiões de fãs, como Braff, não seria também arriscado? Ao mesmo tempo que a ferramenta possibilita a realização do filme, condiciona os estúdios a continuarem os investimentos apenas em blockbusters. Depois que o filme estiver pronto, também será inevitável que os produtores negociem a estreia com grandes distribuidoras. A não ser que o realizador queira apenas jogar na internet ou rodar em festivais… E essa negociação pode sofrer com o individualismo do processo inicial de realização.

E o que o público patrocinador ganha com o filme pronto? Bom, ganha uma obra teoricamente diferente. A desvantagem é investir em um projeto que não temos como saber se será bom. O apoiador paga por algo que só existe em teoria, nem mesmo um trailer ele tem para avaliar se vale o investimento. O público também pode ganhar diferentes prêmios. No caso de Braff, quem apoiar com mais de US$ 10 mil pode ter um papel no filme, ou mesmo pode ganhar o acesso para assistir ao longa online e brindes exclusivos, como cartazes e camisetas. Cada projeto decide como recompensar seus investidores.

De toda forma, acredito que as possibilidades do crowdfunding são bem maiores que suas desvantagens. Não falo apenas sobre filmes, mas também séries, webséries e qualquer formato de produção audiovisual. Se é um risco investir em um projeto desconhecido, apoiado apenas pelo nome de seu realizador, é mais fácil acreditar nas possibilidades do cinema de autor. Mas o que eu considero mais importante é que o crowdfunding mostra a vontade de fazer cinema, de experimentar linguagens e trazer produtos diferenciados.

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Obviamente é um assunto ainda delicado, já que o público pode pensar: “Zach Braff ganha fácil US$ 2 milhões em Hollywood, então por que ele quer o nosso dinheiro? Não quer tirar do próprio bolso?”. Bom, ajuda quem tem e quem quer. A ferramenta também não exclui o investimento dele mesmo e de empresas privadas que acreditam no projeto. O desejo está mais voltado à necessidade da liberdade criativa do que ao fato de ganhar dinheiro fácil. No caso de Veronica Mars, muitos falam que o filme tinha estúdio e distribuidor: a Warner. Teria sido apenas uma estratégia para minimizar os custos com a adaptação, criar um viral entre os fãs da série e testar se existe público para a obra.

Com o apoio recebido, a comédia dramática Wish I Was Here já entrou em pré-produção. Zach Braff assina o roteiro ao lado de seu irmão Adam J. Braff. O elenco conta com o próprio diretor, além de Anna Kendrick, Jim Parsons, Kate Hudson, Mandy Patikin, Donald Faison, entre outros. A previsão de estreia é para 2014.

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