Review | Annabelle (2014), de John R. Leonetti

Annabelle promete tirar o seu sono em spin-off de Invocação do Mal

Transformar brinquedos aparentemente inocentes em vilões de filmes de terror se tornou um clássico do gênero. As criaturas são capazes de, literalmente, tirar o sono não apenas no mundo ficcional, mas também da plateia, com suas maldades e poderes paranormais. O exemplo mais familiar até hoje é o Chucky, da franquia “Brinquedo Assassino”. Mais recentemente, “Jogos Mortais” apresentou o macabro Jigsaw, que lançava jogos sangrentos para as suas vítimas. Agora é a vez de Annabelle, a perigosa boneca de “Invocação do Mal”, contar um pouco sobre a sua história.

A trama acompanha um casal que está esperando a primeira filha. Certo dia, John (Ward Horton) presenteia a esposa Mia (Annabelle Wallis) com uma boneca rara, que logo vira enfeite no quarto da criança. A vida pacata do casal é abalada após o ataque de membros de uma misteriosa seita. Traumatizados, John e Mia resolvem mudar de casa para esquecer o passado, mas uma onda de eventos malignos acompanha o casal. Como desvendar o desconhecido e combater as forças demoníacas causadas por uma simples boneca? É o que eles tentam descobrir neste tenso spin-off.

Mais experiente como diretor de fotografia, John R. Leonetti assume a direção de “Annabelle” com segurança após as péssimas experiências anteriores com “Efeito Borboleta 2” (2006) e “Mortal Kombat – A Aniquilação” (1997). James Wan, responsável por “Invocação do Mal”, ficou com o cargo de produtor, já que estava envolvido com “Velozes e Furiosos 7” e com (mais) um último episódio da franquia “Jogos Mortais”.

Leonetti respeita a história anteriormente contada por Wan, mantendo o constante clima sombrio da trama. Sua câmera arquiteta sequências extremamente eficazes, mesmo quando trabalha os clichês. Televisões e rádios ligam e desligam sozinhos e portas batem misteriosamente, mas existe certa classe na forma que Leonetti registra tais fenômenos. Apesar de não se livrar dos acentuados sustos sonoros, o cineasta acerta ao balancear o suspense psicológico com o terror trash, fundamentais para o bom desempenho do longa.

Auxiliado por uma montagem que jamais deixa o ritmo do filme cair, em sincronia com a poderosa trilha sonora de Joseph Bishara, Leonetti também traz propostas visuais que causam aflição no espectador. Uma máquina de costura pode se transformar em um instrumento altamente perigoso, o subsolo de um condomínio pode ser apavorante e um ataque físico de um demônio pode te surpreender. Além de referenciar “Invocação do Mal”, Leonetti homenageia também “O Bebê de Rosemary”, clássico de Roman Polanski.

Os atores Annabelle Wallis e Ward Horton tentam fazer com que o público se importe com o destino deles, mas é dela o melhor aproveitamento por mostrar como o seu transtorno cresce gradativamente. Horton mal sabe dosar os momentos dramáticos e tem poucas cenas relevantes. Aliás, a espontaneidade da pequena Leah, filha dos protagonistas, se sai bem melhor do que o casal. Tony Amendola e Alfre Woodard fazem um bom contraponto na trama. Amendola representa a religião (aliás, é interessante como o filme mostra a religiosidade dos personagens sem fanatismo) e Woodard poderia ser melhor aproveitada como Evelyn, a vendedora de livros místicos.

O principal acerto do roteiro de Gary Dauberman é fazer com que Annabelle seja pavorosa desde o começo do filme, possuída ou não. A sensação de perigo está sempre presente e a boneca funciona bem como receptáculo da maldade, sem precisar necessariamente se mexer para mostrar os danos que pode causar. A obsessão pelos closes nos olhos de Annabelle é de arrepiar! Se por um lado o roteirista é bastante feliz ao reaproveitar os clichês de forma orgânica e trazer novos conflitos pavorosos, “Annabelle” derrapa em seu terceiro ato, com uma solução fácil demais, talvez para reforçar a intenção de que também pode virar uma franquia. O deslize é lamentável, mas não impede que este integre a lista dos bons filmes de terror lançados nos últimos anos.

Avaliação: 7/10

Texto originalmente publicado no Cinema com Rapadura.

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