Crítica | A Teoria de Tudo (2014), de James Marsh

The Theory of Everything trailer - video

Avaliação: Ótimo

Sempre parece que grande parte das cinebiografias deixa algo de fora, seja para “inocentar” o biografado ou para deslocar o foco para outros assuntos. Elas podem fazer um breve recorte da vida de alguém ou mesmo contar anos de uma trajetória, como é o caso de “A Teoria de Tudo”, mas é praticamente impossível um roteiro de duas horas resumir com precisão a vida de alguém. Assim como qualquer adaptação, é preciso compreender que o que ficou na delimitação do tema é mais importante do que crucificar o que ficou de fora.

Ao adaptar o livro homônimo de Jane Wilde, companheira de décadas do físico e cosmólogo Stephen Hawking, o roteirista Anthony McCarten elabora uma história de amor. A trama acompanha Hawking desde jovem, quando tenta descobrir seu objeto de estudo na universidade, mesma época em que conhece Jane. Pouco depois, é diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica, que compromete os movimentos do seu corpo. Mesmo limitado, o jovem continua desenvolvendo pensamentos científicos sobre o tempo, buracos negros e a origem das coisas. Jane dedica sua vida a cuidar do marido e dos filhos. A partir daí, vemos o casal enfrentar dificuldades físicas e emocionais para permanecer junto.

O diretor James Marsh dá espaço para os conflitos profissionais de Hawking, passando pela comprovação de suas teorias científicas e suas (des)crenças religiosas. Entretanto, a humanidade do filme está em mostrar a juventude que foi comprometida. Todo o processo de paralisação do protagonista é angustiante, principalmente porque ainda vemos nos olhos dele a determinação de continuar vivo. A busca pela normalidade, independente das limitações, e o amor pela família e pela ciência talvez tenham ajudado a ultrapassar barreiras.

Nesse sentido, a atuação de Eddie Redmayne é extraordinária ao encarnar de forma assustadora (no bom sentido da palavra) esse ícone reconhecido mundialmente. A precisão de cada etapa da vida de Hawking, desde o jovem bem humorado ao professor limitado, é construída com propriedade, revelando o excelente trabalho de pesquisa de Redmayne, que merece todo e qualquer prêmio pelo papel. Felicity Jones também tem um bom desempenho, ainda que ancorada na performance de Redmayne para poder brilhar.

Marsh admira e respeita o biografado e procura, acima de tudo, passar uma mensagem sobre como o amor se transforma. O cineasta, que já ganhou um Oscar pelo excelente documentário “O Equilibrista”, utiliza sua delicadeza para fazer deste um filme correto e romântico, mas um pouco melodramático demais, talvez pelos excessos do compositor Jóhann Jóhannsson, cujos acordes sempre forçam determinadas reações. Não precisa. A historia já é poderosa o suficiente para sensibilizar.

“A Teoria de Tudo” faz um belo retrato sobre a trajetória pessoal de Stephen Hawking e mostra que nem todo homem é só obra. O que ele representa para a ciência nos dias de hoje foi muito além das teorias impossíveis. Foi um homem com uma história familiar tão poderosa quanto suas descobertas científicas.

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