Crítica | Para Minha Amada Morta (2015), de Aly Muritiba

Para-Minha-Amada-Morta1

Avaliação: Excelente ★★★★★

Enquanto enfrenta o luto pela esposa e cuida do filho único, um homem descobre que foi traído. A fria obsessão por investigar a rotina do seu concorrente amoroso é o mote de “Para Minha Amada Morta”, longa-metragem paranaense dirigido por Aly Muritiba que integrou a mostra competitiva do 48º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Excelente em cena, o ator Fernando Alves Pinto assume a densidade da trama, auxiliado pela câmera misteriosa de Muritiba. O diretor nos coloca sempre na expectativa do que pode acontecer entre os personagens e, principalmente, como vai acontecer. Qual tipo de vingança está sendo planejada? Ou melhor, por que uma vingança precisa ser feita? Aqui, o roteiro reflete com muita contundência sobre os relacionamentos atuais, alguns deles construídos pela relação de propriedade e poder.

O homem traído passa a viver uma jornada infame, no bom sentido da palavra, entrando na vida de outra família sem pena de prejudicá-la. O recalque de saber que já não era o favorito e que outro tomou o seu lugar mostram o recalque do protagonista, talvez pelo arrependimento de não ter feito a mulher feliz por muito tempo. Nesse ponto, Muritiba também discorre sobre a figura machista que tanto combatemos hoje, mas sem antipatizar o protagonista, por meio de uma briga de egos de encerramento tenso.

O poder da obra está nos detalhes que questionam a voz a esses dois homens magoados pelo passado e que precisam reafirmar sua masculinidade. É interessante que o roteiro não veja as mulheres como histéricas, mas como pessoas que estão à beira de se libertar do contexto no qual foram criadas e que podem cometer os mesmos erros e acertos que seus parceiros. A questão não é exatamente de gênero, mas é a partir desse recorte que se busca uma menor desigualdade dos sexos.

Por ser bastante recente, comparações com “O Lobo Atrás da Porta” (2014), de Fernando Coimbra, são inevitáveis. Entretanto, Muritiba se beneficia com diálogo entre as duas obras, além de realizar um filme particular em sua primeira experiência como diretor de longas-metragens ficcionais.

O filme integrou a programação do 48º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em setembro de 2015.
Texto originalmente publicado no Jornal Diário do Nordeste.