Crítica | O Conto da Princesa Kaguya (2013), de Isao Takahata

Avaliação: Excelente ★★★★★

Em atividade há 30 anos, o estúdio japonês Ghibli entregou preciosidades do cinema de animação, como “Meu Vizinho Totoro”, “A Viagem de Chihiro”, “O Castelo Animado”, “Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar” e, mais recentemente, “Vidas ao Vento”. Além de ter Hayao Miyazaki como seu principal fundador, Isao Takahata também integra o grupo de talentosos cineastas da empresa. Seu último longa, “O Conto da Princesa Kaguya”, foi desenvolvido em 2013, concorrendo ao último Oscar e agora, com certo atraso, estreia nos cinemas brasileiros.

Baseado em “O Conto do Cortador de Bambu”, história folclórica japonesa, a animação acompanha um velho camponês que presencia o nascimento de uma garotinha de dentro de um bambu. Ao lado da esposa, ele cria a jovem, que cresce mais rápido do que uma criança normal. Sentindo-se abençoado por ter encontrado a menina, o camponês acredita que a sua missão é transformá-la em uma princesa.

Com o ouro que também saiu do bambu, o pai constrói uma mansão para que Kaguya, como é batizada ao chegar na capital, possa ter uma vida de majestade. Ele entende que a jovem é uma dádiva, uma espécie de espírito da floresta, e que o título de princesa honrará sua vinda ao mundo. A gratidão do pai chega a cegá-lo e a transformá-lo em um homem de obcecado, mas que não deixa de ter um bom coração.

Tempo

Além de dirigir, Takahata elabora um roteiro que, acima de tudo, respeita o tempo da própria história e dos personagens. Kaguya passa a infância no campo com os amigos, em contato com a natureza, vivendo uma rotina simples. Quando é forçada a se mudar para a capital, ela precisa aprender os bons costumes da realeza e tenta compreender que a felicidade parece depender do matrimônio como garantia para o seu futuro. Acompanhamos todos os passos da garota sem urgência, em um processo de contemplação característica do Estúdio Ghibli.

Kaguya não quer um casamento sem amor, até porque seus verdadeiros sentimentos estão presos ao passado. Como alternativa para fugir do compromisso, ela lança desafios impossíveis aos pretendentes, como buscar a pedra de Buda na Índia ou roubar a joia colorida do pescoço de um dragão. Para ela, cumprir tantas obrigações é como deixar de olhar para o que realmente acontece ao seu lado. “Uma princesa nobre não é humana”, pensa. Se a nobreza do mundo real exige que ela seja quem não deseja ser, onde estaria então a razão de ser feliz e ter liberdade

Simplicidade

Aos 79 anos, Takahata elabora uma trama feminista ao questionar a mulher como objeto, com força narrativa no subtexto e na construção desse universo coerentemente mágico. O lado político da história se mostra bastante atual e, principalmente, universal. A forma como Kaguya tenta se encontrar no mundo e seus anseios por mudanças a levam a um desfecho dramático, que não poupa o espectador de derramar lágrimas antes dos créditos.

A precisão do desenho tradicional faz bom uso dos traços manuais e das cores pálidas para criar uma atmosfera histórica, mas que continua atual. Destaque também para a trilha sonora, elemento narrativo essencial da trama, e para as canções tão cheias de poder e significado cantadas pela protagonista.

É lei no cinema comercial a megalomania dos efeitos visuais, das sequências inacabáveis e dos remakes desnecessários. A indústria conhece o seu público maior e, enquanto esses filmes forem rentáveis, serão feitos. Alguns deles são realmente bons, mas outros mais simples, como “O Conto da Princesa Kaguya”, estreiam com discrição e precisam de atenção do público.

Algumas animações americanas, entregues às estripulias visuais e ao 3D para duplicar sua renda final, parecem tolas quando obras como essa surgem. Não apenas pelo argumento pensado para um público mais maduro, mas também por mostrar que a simplicidade técnica ainda é uma alternativa positiva e purifica o resultado do filme.

Texto originalmente publicado no Jornal Diário do Nordeste.