Crítica | Até que a Sbórnia nos Separe (2013), de Otto Guerra e Ennio Torresan Jr.

Crítica Até que a Sbórnia nos Separe

Avaliação: Ótimo

O cinema nacional é repleto de bons animadores que desenvolvem trabalhos premiados, como os recentes curtas-metragens “Ed.”, de Gabriel Garcia; “Faroeste – Um Autêntico Western”, de Wesley Rodrigues; “Linear”, de Amir Admoni, e “Castillo y el Armado”, de Pedro Harres, para citar alguns. Ainda assim, a realização de longas animados brasileiros não é tão frequente quanto de curtas, tanto pela questão de orçamento quanto pela dificuldade de distribuição.

Nesse segmento, Luiz Bolognesi lançou “Uma História de Amor e Fúria” e Alê Abreu dirigiu “O Menino e o Mundo”, conseguindo certa atenção da mídia. Agora, “Ate que a Sbórnia nos Separe” chega aos cinemas após quase dez anos de preparo pelos experientes animadores Otto Guerra e por Ennio Torresan Jr., mostrando que a criatividade e o talento desses cineastas em nada deixam a desejar em relação às animações estrangeiras.

Baseada livremente no espetáculo gaúcho “Tangos & Tragédias”, a animação brasileira acompanha Kraunus e Pletskaya, dois músicos que vivem em Sbórnia, um país isolado do resto do mundo. Quando o muro que divide Sbórnia do Continente cai, costumes culturais entram em conflito. Enquanto Pletskaya se apaixona pela jovem Cocliquot, o povo sborniano se vê ameaçado por um empresário continental que pretende explorar comercialmente as terras para produzir uma bebida que promete ser um grande sucesso mundial.

Por mais que a animação dialogue intimamente com a cultura gaúcha, não há mistério em compreendê-la em qualquer outro lugar do mundo. O roteiro faz um belo estudo sobre costumes e tradições que devem ser preservados, mesmo com a invasão ideológica, política ou comercial de fora. A anarquia sborniana logo se vê em pauta ao entrar em contato com outras formas de pensar, agir e negociar. Cabe ao povo manter-se firme em suas raízes.

Existe um recorte mais adulto em “Até que a Sbórnia nos Separe”, ainda que não menospreze o público infantil com suas doçuras e travessuras. O romance da trama surge com naturalidade e é extremamente carismático, tanto que, quando não está em cena, faz falta. O longa derrapa um pouquinho justamente ao intercalar os planos malignos do empresário Gonçalo, mas nada que prejudique o produto final.

O elenco de dubladores é um dos mais afiados, contando com nomes como Arlete Salles, Fernanda Takai, André Abujamra, Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky. Esses três últimos também ficaram responsáveis pelo excelente trabalho de trilha sonora, que embala a narrativa trazendo fluidez para uma história que tem certo requinte e seriedade, com piadas bem dosadas e pouco infantis.

Tecnicamente, a animação é impecável. Otto Guerra, diretor do excelente “Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’Roll”, tem total controle de suas ideias e conta com um desenho de produção soberbo, desde os traços minimalistas que dão origem a Sbórnia até a construção dos personagens. A animação clássica ganha um toque luxuoso, que remete às animações não-americanas, ganhando poder com a utilização da técnica tridimensional, que rende grandes “viagens” da câmera pelos cenários da trama. A experiência de Ennio Torresan Jr. nos estúdios da Dreamworks também foi bem-vinda neste processo grandioso.

“Até que a Sbórnia nos Separe” é mais um representante que fortalece as animações brasileiras e mostra que muito pode ser feito daqui para frente. Uma obra que deve servir de incentivo para que mais animações sejam feitas e tragam diversidade ao mercado nacional.