Crítica | Corra! (2017), de Jordan Peele

Avaliação: 3/5

O cinema tem cumprido uma função muito importante ao sustentar debates que espelhem a realidade. Questões raciais, sociais e de gênero estão em evidência, a maioria das vezes em filmes menos comerciais que se preocupam em realizar e pensar a linguagem cinematográfica também como uma ferramenta política, indissociável de sua
estética.

O diretor estreante Jordan Peele disse que começou a desenvolver “Corra!” ainda durante o primeiro mandato de Barack Obama, quando a desigualdade racial passava por um cenário mais esperançoso. Por isso, nem imagina que o thriller se tornaria um sucesso absoluto de público e crítica.

Com orçamento de US$4,5 milhões, “Corra!” já ultrapassou US$200 milhões em bilheteria, o que coloca Peele na mira da indústria e, claro, com possibilidade de transformar o filme em uma franquia.

O sucesso foi impulsionado, de uma forma ou de outra, pela nova administração opressora de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, e também pela urgência que se tem cobrado do cinema e da mídia em geral para dar espaço aos segmentos oprimidos da sociedade, funcionando como mediadores de pensamento e comportamento contemporâneo.

A história começa apresentando o afro-americano Chris, papel de Daniel Kaluuya, e sua namorada Rose, vivida por Allison Williams. O casal se prepara para uma viagem rumo à casa isolada dos pais da moça, onde finalmente o novo namorado será apresentado.

No caminho, eles atropelam um animal na estrada e Chris o observa agonizando. É quando ele se conecta e tem um estalo de que a viagem pode ser complicada. Afinal, os pais da moça não sabem que ele é negro e a cultura branca ainda se acha superiora às demais.

Ao chegar na casa, Chris é bem recebido pelos pais de Rose, a psiquiatra Missy, papel da sempre ótima Catherine Keener, e o médico Dean, vivido por Bradley Whitford. Não demora até que os estranhamentos surjam. A família mantém dois empregados negros, cujo comportamento é, no mínimo, estranho.

O primeiro ato constrói todas as relações atuais que dizem respeito à raça, em especial a sensação de falsa normalidade de que negros convivem com o preconceito velado. Um relacionamento inter-racial não deveria mais ser questionado nos tempos de hoje, mas os níveis de intolerância com as camadas oprimidas infelizmente não perdem suas raízes.

Durante a visita, o protagonista participa de um encontro com homens e mulheres brancos, de artificialidade inigualável e que mais parecem membros de uma seita. A partir daí, ele descobre que não está em um ambiente seguro.

Se no início da projeção Peele trata dos conflitos raciais na sociedade americana (e no mundo em geral, claro), essa abordagem se perde no decorrer da projeção. Contar mais detalhes seria estragar a experiência de “Corra!”, mas o roteiro parece não conseguir sustentar sua temática até o final.

O filme se torna uma espécie de “salve-se quem puder” e, nos minutos finais, aparentemente pouco importa se o protagonista é negro ou não. Talvez o marketing tenha posicionado “Corra!” como um thriller psicológico racial, mas ele não consegue crescer de nenhuma forma.

Por mais que seja claro o tom de fantasia que a história adota no decorrer da projeção, suas motivações não chegam a envolver. O que há por trás dos pais de Rose começa como uma experiência psicológica e se transformam em algo físico. Para explicar isso, Peele ainda insere sequências autoexplicativas ao extremo que em nada ajudam na fruição do suspense.

Ao se tornar um herói, Chris está lutando apenas para sair ileso, não pelo seu lugar no mundo. A politização do filme se desmancha em sequências sanguinolentas para agradar o público de shopping acostumado com violência gráfica, enquanto a suposta inventividade da história corre pelo ralo.

Peele também insere humor na trama, especialmente no personagem Rod, interpretado por LilRel Howery, amigo do protagonista. Em determinada cena, Rod é exposto a um momento constrangedor digno de sitcom barato. A comédia aqui não nasce pelo esdrúxulo que existe nos conflitos, mas sim de bobagens que não somam à trama principal.

Talvez o maior acerto de “Corra!” esteja realmente na forma de retrabalhar o cinema de gênero, em especial o suspense psicológico, no qual os sustos não nascem apenas do choque de som e imagens, mas da sensação de insegurança e incerteza da história, mesmo que essa não traga grandes sacadas. Tem sido comum os gêneros no cinema explorarem contextos mais abrangentes e políticos, utilizando o terror de forma figurada.

Muitas vezes o mercado cria grandes produtos que são até legais, porém mais fracos do que sua própria imagem conseguiu atingir. “Corra!” é um filme simples, que dá a sensação de que poderia ir bem mais longe. Repete os rótulos do gênero enquanto tenta criar novas perspectivas, mas não chega a impressionar em sua narrativa ou estética.

Pode ser visto apenas como um bom entretenimento que teve a sorte grande de viralizar pela oportunidade de discutir um assunto necessário. No mais, é ficar de olho nas novas aventuras de Peele, que já prometeu que tem outras histórias importantes para contar ao público.

Publicado originalmente pelo autor no Jornal Diário do Nordeste.