Crítica | Aquaman (2018), de James Wan

AquamanRelações submersas

O cineasta James Wan já provou que entende de mercado. Desde que surgiu como um criador visionário responsável pela franquia “Jogos Mortais” (2004) e desenvolveu seu próprio universo cinematográfico de terror com exemplares de “Sobrenatural” (2010), “Invocação do Mal” (2013) e derivados, Wan tenta, ainda que de forma irregular, trazer propostas que transitem bem entre a linguagem e o apelo do circuito comercial. Ao assumir “Velozes e Furiosos 7” (2015), Wan entrou de vez nos blockbusters tentando preservar suas características de autor, mesmo preso ao controle extremo dos grandes estúdios.

Assim, fica claro o esforço do diretor ao conceber “Aquaman” para a Warner/DC, que ainda tenta acertar os passos na criação de seus filmes de super-herói, especialmente após o sucesso de “Mulher-Maravilha” (2017) e a forte concorrência com a Disney/Marvel. O que temos, então, nesse filme de origem do herói marinho é um bom diretor que está ciente das amarras do estúdio (e todos os quesitos que ele precisa cumprir com o filme) e que tenta fazer um bom trabalho, mesmo que tenha em mãos um roteiro desajustado.

“Aquaman” dá início ao universo do herói após aparições anteriores em “Batman vs Superman: A Origem da Justiça” (2016) e “Liga da Justiça” (2017). Sem gozar da mesma fama de seus colegas, a história é didática e acompanha Arthur desde o seu nascimento, fruto do amor improvável após a fuga da Rainha Atlanna (Nicole Kidman) do reino de Atlantis. Já adulto, Arthur vai precisar se conectar com o reino marinho para impedir que uma guerra aconteça.

O primeiro ato foca nos encontros entre os personagens e no desenvolvimento de sequências de ação ágeis. Algumas marcas de Wan, como as transições criativas entre cenas, estão lá e cabem muito bem à proposta original. Quanto mais conhecemos a história de Atlantis e de seus moradores, mais conflitos surgem. Chega um momento que é tanta coisa acontecendo, tanta imagem explodindo – literalmente – em tela que o longa beira a megalomania imagética. A direção de arte, os figurinos e os efeitos visuais poluem a tela a todo instante.

Aquaman2O miolo da história, que se passa entre o deserto do Saara e a Itália, quebra radicalmente a narrativa para abrir espaço para um romance previsível, com direito a trilha sonora padrão e gags visuais. Quando tenta voltar ao que interessa, a partir do ótimo segmento que se passa no Fosso, fica difícil para Wan recuperar o fôlego de uma história irregular. No Fosso, Wan faz o que sabe de melhor: criar uma atmosfera de terror, trazendo elementos de filmes de monstros para o momento mais interessante da história.

Felizmente, o ator Jason Momoa é carismático o suficiente para segurar o protagonismo da obra, ainda que se submeta às já recorrentes piadinhas de super-heróis que servem de alívio cômico e, diria, um pouco de constrangimento também. Wan tenta administrar as variáveis da mitologia por trás do herói para transformá-las em algo acessível. O conflito principal, que gira em torno do tridente que fará de Arthur um grande rei, às vezes se perde no meio de tantas informações.

Como o filme é longo demais, é possível se questionar várias vezes o que aqueles personagem buscam ou estão fazendo em cena. Esses vazios são sentidos durante a projeção, o que prejudica a fluidez da narrativa. O terceiro ato tenta orquestrar uma grande batalha em família que se resolve muito rapidamente, sem a profundidade que supostamente o filme acredita que tem.

Mesmo com tantos atropelamentos no meio do caminho, não é difícil que “Aquaman” seja um dos trabalhos menos problemáticos da Warner/DC. Segue as fórmulas comuns, mas tem um diretor que tenta driblar o enfado do mercado comercial e atores agradáveis que tentam dar dignidade ao trabalho. Já é alguma coisa.